Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás

Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás – Nº 125 / setembro de 2020

Equipe Responsável: Prof. Dr. Edson Roberto Vieira e Prof. Dr Antônio Marcos de Queiroz

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou neste mês mais informações da sua Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), relativa ao período 2017-2018, que colocaram luz sobre a segurança alimentar da população brasileira. No país, 10,3 milhões de pessoas moravam em domicílios que apresentaram insegurança alimentar grave em algum momento do período de referência da pesquisa. Já em Goiás, foram 352 mil pessoas nesta situação, as quais ou tiveram menos comida do que necessitavam, ou chegaram a passar fome, incluindo crianças, o que é mais perverso.

Além daqueles com insegurança alimentar grave, o IBGE levantou os domicílios que tiveram insegurança alimentar moderada (ou seja, que tiveram redução da quantidade de alimentos ou ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos entre adultos, mas sem envolver as crianças, como ocorre na insegurança alimentar grave) e insegurança alimentar leve (que se refere às incertezas quanto ao acesso e ao consumo inadequado de alimentos). Por outro lado, os domicílios com segurança alimentar abrangem os que não apresentaram nenhuma das características mencionadas acima, tendo tido acesso regular e permanente não apenas à quantidade necessária, como também aos alimentos com a qualidade desejada.

Feitas essas considerações, vale mencionar que, dos 68,9 milhões de domicílios que existiam no país em 2017-2018, 36,7% (25,3 milhões) apresentaram algum nível de insegurança alimentar. Em Goiás, esse percentual foi de 36,4% (abrangendo 855 mil) dos seus 2,35 milhões de domicílios. Esse resultado colocou o estado na 11ª posição dentre as 27 Unidades da Federação brasileiras. Os três estados da região Sul foram os que ficaram com os melhores resultados neste quesito, com destaque para Santa Catarina, cujo percentual de domicílios que apresentaram insegurança alimentar foi de 13,1%. Na outra ponta, ficaram as regiões Norte e Nordeste, que possuíam os estados com maior percentual de domicílios com pessoas que passaram por restrições quantitativas ou qualitativas de alimentos. Os maiores percentuais da região Nordeste ficaram por conta do Maranhão (66,0%) e de Alagoas (57,0%) e na região Norte essas posições pertenciam ao Amazonas (65,5%) e ao Pará (61,0%).

Olhando por essa lente, os resultados de Goiás não parecem ser tão ruins. Embora não sejam tão bons quanto os dos estados da região Sul, estão ligeiramente abaixo da média nacional e relativamente longe dos indicadores registrados pelos estados das regiões Norte e Nordeste supracitados. Todavia, é lícito registrar que o percentual de domicílios que apresentaram insegurança alimentar vem aumentando no estado, assim como no Brasil. Em 2013, esse percentual era de 19,6% em Goiás e de 22,6% no Brasil; de lá para cá, aumentou 16,8 pontos percentuais (p.p.) em Goiás e 14,1 p.p no Brasil.

Há indícios de que o panorama da fome ilustrado pela última POF possa ter relação com a piora observada no mercado de trabalho nos últimos anos. A Pnad Contínua, também realizada pelo IBGE, mostra que, após os resultados positivos registrados no mercado de trabalho em anos anteriores, o desemprego iniciou movimento contrário no início de 2015, terminando 2019 com média de quase 12,0%, ante 7,2% em 2013 e 6,9% em 2014. Mesmo antes do início da pandemia, a pesquisa já registrava mais de 40,0% de pessoas trabalhando em empregos informais no Brasil e em Goiás, cujos salários são, em média, 30% menores do que os recebidos em empregos formais.

Mais recentemente, outra pesquisa do Instituto, a Pnad Covid19, revela que a taxa de desocupação vem subindo mês a mês, alcançando, em agosto/2020, 13,6% no Brasil e 13,5% em Goiás, contra os 10,7% e 12,6% registrados, respectivamente, no país e no estado em maio/2020. Especialmente do ponto de vista das pessoas mais pobres, o quadro de fome no país pode estar se agravando em razão da inflação, que voltou a aumentar, puxada notadamente pelos preços dos alimentos. O preço do arroz aumentou quase 40,0% somente neste ano em Goiânia, em consonância com a elevação dos preços do óleo de soja (43,6%), ovo (32,3%), carne de porco (29,9%) e leite longa vida (22,6%), entre outros produtos importantes na alimentação cotidiana do brasileiro.

É neste sentido que se deve observar com cuidado os efeitos da redução (de R$600,00 para R$300,00) do valor do auxílio emergencial pago pelo Governo Federal neste ano. Essa redução e uma eventual interrupção completa do seu pagamento em 2021 podem agravar ainda mais a situação das pessoas mais pobres, que são também as que se encontram em situação de insegurança alimentar grave. Cerca de 67 milhões de pessoas estão recebendo esse tipo de auxílio no país e não parece haver sinais de que a recuperação do mercado de trabalho ocorra rapidamente.

 

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