Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás

Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás – Nº 138 /outubro de 2021

Equipe Responsável: Prof. Dr. Edson Roberto Vieira e Prof. Dr Antônio Marcos de Queiroz

 

O Copom elevou novamente a taxa básica de juros da economia, Selic, alçando-a a 7,75% a.a na reunião realizada no dia 27 de outubro deste ano, ante os 6,25% que vigoravam anteriormente. A medida vem como reação do Banco Central aos dois dígitos que o IPCA calculado pelo IBGE atingiu nos últimos 12 meses. Até março desse ano, a Selic estava em 2,0% a.a., e, após seis aumentos consecutivos, a taxa alcançou seu maior nível desde setembro de 2017.

No âmbito do regime de metas de inflação, que vigora no Brasil desde janeiro de 2009, quando se teve também a mudança do regime cambial do país, de quase fixo (bandas cambiais) para flutuante, o que se pretende com esse processo de elevação dos juros é “ancorar as expetativas dos agentes”, isto é, fazê-los retomar a crença de que a inflação permanecerá dentro da meta perseguida pelo Banco Central e, com isso, reagirem não aumentando os preços.

Um ponto que tem gerado discussão é que o aumento da inflação neste momento não é causado pelo crescimento da demanda agregada, que padece especialmente pelo arrefecimento de seu principal componente: o consumo das famílias. Desde o início da pandemia da Covid-19, os preços dos alimentos e dos combustíveis têm aumentado no mercado internacional e sido repassados diretamente e indiretamente para vários preços internos. Em 12 meses, os dados do IBGE mostram que o IPCA atinge 10,34%, nível alto, porém abaixo, por exemplo, dos 34,0% registrados pelo preço da gasolina, 29,0% do óleo diesel, e 28,0% do gás de botijão. Podem ser citados também alguns exemplos de preços de alimentos afetados pelo setor externo, como é o caso do açúcar refinado (32,5%), fubá de milho (26,8%) e frango em pedaços (22,3%). Ademais, mais recentemente, outros preços vêm sendo majorados, fundamentalmente em razão do preço da energia elétrica, que já aumentou 17,8% nos últimos 12 meses, como resultado da crise hídrica por que passa o Brasil.

Preços estáveis são fundamentais para qualquer economia. O contrário disso gera aumento da desigualdade social, com queda do poder de compra e da renda real, especialmente da parcela mais pobre da população, que não consegue se proteger da inflação, diferentemente dos mais ricos, que têm acesso aos sofisticados arranjos monetários e financeiros disponíveis no mercado. A inflação em ascensão pode também redundar em problemas nas contas externas do país, haja vista que causa valorização real da taxa de câmbio, dificultando as exportações. Outra questão é que a alta dos preços inibe os investimentos produtivos, tanto pela dificuldade de cálculo de seu retorno no longo prazo, quanto pela queda do tamanho de mercado consumidor decorrente da redução da renda real da população.

Isso justificaria a implementação dos juros altos para combater a inflação num momento em que a economia precisa se recuperar e gerar empregos. Há pouco tempo, a Selic estava em seu menor nível histórico, como medida para reverter a queda do nível de produção causada pela pandemia da Covid-19. Contudo, a pandemia ainda não acabou, a queda do nível de produção não foi completamente revertida, mas o juro básico continua aumentando e tornando maiores os custos dos empréstimos para o consumo e dos financiamentos do investimento no país.

A questão é que o processo inflacionário no Brasil tem sido intensificado por conta da forte depreciação cambial verificada no país. É verdade que o preço do dólar aumentou em muitos países emergentes, mas por aqui o aumento tem sido relativamente maior em função da crise política e fiscal. Um levantamento da agência de classificação de risco Austin Rating mostra que, durante a pandemia, o real se desvalorizou 17,1%, bem acima da média de 6,6% das moedas de outros países. Uma situação fiscal e um ambiente político mais planos poderiam trazer alento em relação à inflação. Sem isso, haja aumento da taxa Selic. 

Em tempo: os aumentos dos preços dos combustíveis mencionados acima ainda não levam em conta os reajustes de 7,04% no preço da gasolina e de 9,15% no preço do óleo diesel determinados pela Petrobrás no último dia 25 de outubro.